13 de agosto de 2012

A fábula por trás da cortina.


De todos os momentos da minha vida ainda pequena, pretendo descrever 30 segundos em que a respiração falha e o coração descompassa, tremendo.

É aquele instante após o abraço. A cortina se fecha, o palco escurece e o silêncio reina em cada movimento.

Posso sentir meu corpo vibrar de vontade. Transpira a dança pelos poros, aguardando o 8 correto para expandir, enquanto a platéia toma assento e sussurra os preconceitos que já pairam entre o leigo e o bem entendido.

Ali eu quis que o tempo se alongasse como a minha coluna. Quieto e na penumbra.

Ecoa uma turbulência naquele silêncio e tenho a sensação que minhas artérias estão prestes a explodir.

"Eu quero pulsar maior. Eu quero pulsar em RPM. Em beats, bytes, pixels, energia, suor, lágrima".

Cresce uma insanidade no peito de querer dar o salto mais alto, o passo mais largo, o giro mais preciso.

Eu só preciso de três campainhas agora. O sangue corrente chega a ser audível no momento em que ela grita, por três vezes, como eu esperava.

A luz esquenta o proscênio. A cortina revela a caixa aberta em que se encontram as expressões corporais ansiosas por voyeurs. E o ritmo conecta os ouvidos ao ritual que se consumirá nos próximos 50 minutos.

Me levanto, endireito os ombros e me abandono na cadência musical.

8 de julho de 2012

se um dia me perguntassem "Você conhece Jesus"
eu diria simplesmente: Tenho até uma foto com Ele!



serviu.

não sei se vou falar grego agora, mas já houve um alguém, despretensioso, desligado de qualquer conotação carnal, que te disse, no bom e velho português, num diálogo vivo, sem o intermédio da tecnologia: EU TE ADORO, SABIA?

a história é simples.

um domingo longe de ser destaque na memória.
um dia frio tal qual conversa de elevador. 
uma noite destrinchada em desânimo pelo dever-fazer irritante.
um diálogo inconsequentemente trivial acerca do movimento circular de rotação da Terra.

 uma constatação de carinho.

sem "alô" o sorriso vem: largo e sincero como você não achou que iria acontecer até o término desse dia meia boca.
é quando a vida volta a ser boca inteira.
o abraço se fez palavra e repousa no ombro do ouvido pra tardar a sair.
por favor, que sua presença volte sempre.

29 de junho de 2012

(no coração:)
a saudade aqui
é um verso carregado de ventania
que um dia resolveu partir

 nunca mais faltou ar

(no ouvido:)
M83 - I guess I'm floating

15 de junho de 2012

sou um amante declarado do agora.

12 de junho de 2012

Patologia.

Eu tive que procurar um médico.

- Doutor, estou doente. Me ajuda.
- O que você tem?
- Saudade.
 Eu mesmo me diagnostiquei mas não consegui curar.
 Existe um pulsar diferente no meu sangue que suponho ser um pouco mais intenso aqui do que em qualquer outro canto. Sabe aquilo que falam da paixão? Arrebatadora, implacável, sem hora, sem licença... Meu organismo preferiu sentir isso com a tal da saudade.
 Não tenho saudade de pessoas. De maneira alguma... Eu tenho rede social e uns versos pré-cozidos pra colar em murais desavisados.
 Meu problema é com o momento.
 O momento me tira o sossego. Ele me faz querer um chocolate que não fabricam, uma cerveja que não existe, um perfume que não encontraram. É uma vontade de não-sei-o-que que não há telefonema que resolva.
 Tentei me apegar desesperadamente na fotografia. Tentei colocar na imagem o sabor do momento, o cheiro do momento, o sorriso do momento, o extase do momento, a simplicidade do momento... mas não coube. Não encaixa.
Eu não sei o que fazer com o momento. Ele é cigano, não estaciona. Sempre vai. Só vai sem olhar.

 Sou só eu quem olha.

Quisera eu ter tido o livre arbítrio de não conhecer a palavra saudade. Quem sabe assim o sentimento fosse irrisório, sem fundamento, sem noção cognitiva.
Mas eu adoeci de saudade.
eu quis falar de honestidade. quis tacar pedra. quis estapear a cara. quis jogar pra cima e raquetear. quis julgar. quis apontar. quis gritar. até cair.

5 de abril de 2012

Não sei falar bonito pra agradecer.

No caminho tinha uma pedra. Mas havia aquela gente, numa escavadeira improvisada, deixando o chão batido mais fácil de percorrer.

Aquela gente não tem tradução.

Veio fazer sua parte, de graça, e levou na mala minha gratidão.

4 de fevereiro de 2012

Mas cara do que?

To livre.

Tal livro.

Tal larva.

Leve tal vulto.

Tal vela, livro a vista em volta.

Larva de livro livre na lira.

Volto. Visto a veste e vou.

Vida.

"De onde vem a canção"

Oxalá eu tivesse peito pra usar a metalinguagem. Tenho três pés atrás com a palavra.

Não quero falar mal de ninguém, quem dirá pelas costas, mas a palavra é musculosa. Ela subjuga. Não dá tempo pra pensar.

Eu temo a palavra, confesso a fraqueza minha.

Longe de acreditar em teorias da conspiração, não quero impor uma imagem tirânica da palavra.

Mas eu prefiro não tocar na pá. Lavra.